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Guia TAC GLP-1

O que eu gostaria que todo paciente recebesse junto com a primeira caneta.

Dra. Tamires Aiex CortezDra. Tamires Aiex Cortez · Médica · Instituto Jota Saúde Integrada
8 capítulos · leitura de 15 minutos
UMA CONVERSA ENTRE NÓS

Antes de começar: uma carta minha pra você

Eu sou a Dra. Tamires Aiex Cortez, médica, e trato obesidade todos os dias no Instituto Jota. Escrevi este guia porque vejo muita gente usando GLP-1 sozinha, sem saber o que esperar, e perdendo o melhor que esse remédio pode oferecer.

O GLP-1 é uma das ferramentas mais importantes que a medicina já teve contra a obesidade. Mas ferramenta boa na mão errada vira frustração: enjoo que ninguém explicou, músculo que vai embora junto com a gordura, peso que volta quando o tratamento para.

Este guia é o que eu gostaria que todo paciente recebesse junto com a primeira caneta. Ele não substitui sua consulta. Ele te prepara para ela e te ajuda a fazer cada semana valer a pena.

Como usar este guia

  1. 1Leia o capítulo 1 primeiro. Ele muda a forma como você enxerga o tratamento.
  2. 2Depois, pule direto para o que você está vivendo agora: enjoo, dose, alimentação, treino ou parada.
  3. 3Salve o checklist do capítulo 8 e use toda semana.
Um combinado entre nós: nenhuma informação aqui é motivo para mudar sua dose ou parar o remédio por conta própria. Isso se decide com o seu médico.

Com carinho,
Dra. Tamires Aiex Cortez

01

O que o GLP-1 faz (e o que ele não faz)

O GLP-1 não é mágica, é biologia: ele imita um hormônio que seu intestino já produz depois de comer. Esse hormônio avisa o cérebro que você está satisfeito, deixa a digestão mais lenta e ajuda a controlar o açúcar no sangue. Na prática, meus pacientes descrevem assim: "o barulho da comida na minha cabeça diminuiu". A fome deixa de mandar em você. E é aí que mora a oportunidade: com a fome sob controle, fica possível construir hábitos que antes pareciam impossíveis.

Mitos e verdades

MITOÉ remédio só pra diabético.
VERDADE

Existem versões aprovadas especificamente para tratar obesidade. A indicação é médica, não de quem tem ou não diabetes.

MITOÉ atalho de quem não tem força de vontade.
VERDADE

Obesidade é uma doença crônica, com componente genético e hormonal. Tratar com remédio é tão legítimo quanto tratar pressão alta.

MITOVou perder só gordura.
VERDADE

Sem proteína e treino de força, uma parte importante do peso perdido pode ser músculo. Os capítulos 4 e 5 existem por causa disso.

MITOQuanto mais rápido eu emagrecer, melhor.
VERDADE

Perda muito rápida costuma vir com mais efeitos colaterais, mais perda de músculo e mais chance de abandonar o tratamento.

MITOSe não sinto enjoo, não está funcionando.
VERDADE

Enjoo é efeito colateral, não sinal de eficácia. Muita gente emagrece bem sem sentir quase nada.

MITOComo estou comendo pouco, posso comer qualquer coisa.
VERDADE

Comendo menos, cada garfada conta mais. A qualidade do prato define se você perde gordura ou saúde.

MITOCheguei no peso, posso parar.
VERDADE

Os estudos mostram que, ao parar sem um plano, a maior parte do peso tende a voltar em cerca de um ano. Parar é uma decisão planejada (capítulo 7).

MITOA caneta que minha amiga usa serve pra mim.
VERDADE

Dose, tipo de medicamento e acompanhamento são individuais. E produtos sem procedência podem ser falsificados. Compre só com receita, em farmácia regularizada.

O ponto principal: o GLP-1 abre uma janela. O que você constrói enquanto ela está aberta é o que fica.

02

Efeitos colaterais: como passar por eles com tranquilidade

A maioria dos efeitos colaterais do GLP-1 é digestiva, aparece nas primeiras semanas ou logo depois de subir a dose, e melhora com o tempo. A boa notícia: quase todos respondem bem a ajustes simples no jeito de comer.

A regra de ouro: o GLP-1 deixa seu estômago mais lento. Então coma devagar, em porções menores, e pare no primeiro sinal de saciedade, não quando o prato acabar.

Enjoo

O que ajuda

Refeições menores e mais frequentes. Evite frituras e comida muito gordurosa. Gengibre e alimentos frios costumam ser mais bem tolerados. Não deite logo depois de comer.

Prisão de ventre

O que ajuda

Água ao longo do dia, fibras (verduras, legumes, frutas, aveia, chia) e movimento diário. Se não melhorar, fale com seu médico antes de usar laxante.

Diarreia

O que ajuda

Hidratação reforçada, refeições leves e menos gordura. Observe se piora com algum alimento específico.

Azia, arroto, estômago cheio

O que ajuda

Porções menores, jantar mais cedo, menos refrigerante, café e álcool.

Cansaço

O que ajuda

Quase sempre é pouca comida, pouca proteína ou pouca água. Revise o capítulo 4.

Queda de cabelo

O que ajuda

Costuma estar ligada à perda de peso rápida e à falta de proteína, e é temporária. Converse com seu médico.

Efeito colateral não é algo para aguentar calado. Quase sempre existe um ajuste que resolve, e é pra isso que serve o acompanhamento.

03

Dose: por que mais nem sempre é melhor

A melhor dose de GLP-1 é a menor que funciona bem pra você. Não existe prêmio por chegar na dose máxima, e muitos pacientes têm ótimos resultados em doses intermediárias.

Os seis princípios que eu uso no consultório

1

Começar baixo e subir devagar.

O aumento é feito em etapas, geralmente a cada quatro semanas ou mais, para o corpo se adaptar.

2

Subir só quando faz sentido.

Se a fome está controlada e o peso está caindo num ritmo saudável, não há motivo para aumentar.

3

Efeito colateral pede calma, não pressa.

Se a dose atual ainda incomoda, o caminho costuma ser ficar mais tempo nela, não subir.

4

Platô é normal.

O peso não cai em linha reta. Semanas paradas fazem parte. Antes de pensar em dose, revise proteína, sono, treino e álcool.

5

Regularidade importa.

Aplique no mesmo dia da semana e faça rodízio do local (barriga, coxa ou braço). Esqueceu uma dose? Siga a orientação do seu médico, sem dobrar a próxima.

6

Dose é conversa, não autoatendimento.

Qualquer mudança, para cima ou para baixo, é decidida em consulta.

“O objetivo não é perder peso o mais rápido possível. É perder gordura, manter músculo e conseguir sustentar isso.”
04

Proteína primeiro: o prato de quem usa GLP-1

Se você só levar uma coisa deste guia, que seja esta: com o GLP-1 você come menos, então a proteína precisa vir primeiro no prato. É ela que protege seu músculo, sua energia e seu cabelo enquanto a gordura vai embora.

Quanto de proteína?

Para a maioria dos meus pacientes, a meta fica entre 1,2 e 1,6 g por quilo de peso ajustado por dia, dividida em 3 ou 4 refeições de cerca de 25 a 30 g. Sua meta exata é definida na consulta, principalmente se você tem algum problema nos rins.

A ordem do prato

ProteínaVegetaisCarboidrato
  1. Proteína primeiro: carne, frango, peixe, ovos, laticínios ou leguminosas.
  2. Depois os vegetais: folhas e legumes, com fibra e volume.
  3. Por último o carboidrato: arroz, feijão, batata, fruta, na quantidade que ainda couber.

Se a saciedade chegar no meio do prato, você já comeu o mais importante.

Fontes práticas de proteína (valores aproximados)

AlimentoPorçãoProteína
Peito de frango grelhado100 g~30 g
Carne vermelha magra100 g~28 g
Peixe (tilápia, salmão)100 g~22 a 25 g
Atum em lata (água)1 lata escorrida~20 g
Whey protein1 dose (30 g)~20 a 24 g
Iogurte grego natural / skyr1 pote (150 a 170 g)~10 a 15 g
Ovo2 unidades~12 g
Queijo cottage3 colheres de sopa~7 g
Feijão, lentilha ou grão-de-bico1 concha~6 a 8 g

Água

Beba ao longo do dia, sem esperar a sede. Urina clara é um bom sinal.

Álcool

Com o GLP-1 ele pesa mais, piora o enjoo e rouba espaço de comida de verdade. Quanto menos, melhor.

Ultraprocessados

Biscoito, salgadinho e doce ocupam o pouco espaço que você tem sem entregar nutrientes.

Não é dieta perfeita. É fazer o pouco que você come valer muito.

05

Treino de força para não perder músculo

Músculo é o seu seguro de longo prazo: ele sustenta o metabolismo, protege as articulações e é o que mais ajuda a não recuperar o peso depois. Por isso, junto com a proteína, o treino de força não é opcional no tratamento com GLP-1.

Aqui no Instituto Jota, a nossa orientação é simples: comece pequeno, mas comece esta semana.

A semana mínima

Treino de força

2 a 3 vezes por semana, 20 a 40 min

Mantém e constrói músculo

Caminhada ou outro aeróbico

150 min por semana, divididos como preferir

Coração, disposição e gasto de energia

Passos no dia a dia

Some 2.000 passos ao que você já faz hoje

Movimento fora do treino também conta

Treino de força para começar em casa

2 a 3 séries de 8 a 12 repetições

1

Sentar e levantar da cadeira, sem usar as mãos.

2

Flexão de braço apoiada na parede ou na bancada da cozinha.

3

Remada com elástico ou com uma mochila com peso.

4

Ponte de glúteo, deitado de barriga para cima.

5

Prancha apoiada nos joelhos, de 20 a 30 segundos.

Quando ficar fácil fazer 12 repetições com boa postura, aumente a carga. É essa progressão que manda o sinal para o corpo guardar músculo.

Cuidados

  • Coma algo com proteína antes ou depois do treino. Treinar sem comer nada aumenta a chance de tontura.
  • Dor articular, falta de ar fora do normal ou tontura: pare e avise sua equipe.
  • Se você tem dor na coluna, no joelho ou no ombro, peça uma avaliação antes. Adaptar o exercício é sempre melhor do que desistir dele.
06

Os primeiros 30 dias: o que esperar

O primeiro mês é de adaptação, não de resultado máximo. Quem entende isso chega ao segundo mês animado; quem espera milagre na primeira semana costuma se frustrar à toa.

Semana 1

O que costuma acontecer

A fome diminui já nos primeiros dias. Pode aparecer enjoo leve ou sensação de estômago cheio.

Seu foco

Comer devagar, porções menores, beber água. Anotar como você se sente.

Semana 2

O que costuma acontecer

O corpo começa a se adaptar. O peso pode cair um pouco, muitas vezes água e intestino.

Seu foco

Montar o prato com proteína primeiro. Primeiro treino de força.

Semana 3

O que costuma acontecer

Os efeitos colaterais costumam ficar mais leves. A rotina começa a parecer natural.

Seu foco

Bater a meta de proteína na maioria dos dias. Dois treinos na semana.

Semana 4

O que costuma acontecer

Hora de olhar para o mês inteiro, não para a balança de um dia.

Seu foco

Revisar com o médico: sintomas, fome, peso, medidas e se é hora de ajustar a dose.

O que medir, além do peso

Cintura, medida uma vez por semana no mesmo horário.
Uma foto de frente e de lado a cada 15 dias.
Energia, sono e fome, numa nota de 0 a 10.
Cargas do treino: se você está ficando mais forte, está preservando músculo.

A balança é só um dos termômetros. Quando todos eles andam juntos, o tratamento está no caminho certo.

07

E quando parar? Como não recuperar o peso

Parar o GLP-1 sem um plano é o motivo número um de reganho de peso. Quando o remédio sai, a fome volta ao nível de antes. Se nada mais mudou, o peso tende a voltar junto. Isso não quer dizer que você vai usar para sempre. Quer dizer que a saída precisa ser tão bem planejada quanto a entrada.

Antes de pensar em parar, pergunte-se

Eu como proteína primeiro na maioria das refeições, sem precisar pensar?

Eu treino força pelo menos duas vezes por semana há alguns meses?

Eu sei reconhecer minha fome de verdade e minha fome emocional?

Meu sono e meu estresse estão minimamente sob controle?

Como costuma ser uma saída bem feita

  1. A decisão é feita em consulta, nunca porque a caneta acabou ou porque o peso chegou na meta.
  2. Redução gradual, quando indicado, em vez de parar de uma vez.
  3. Monitoramento próximo nos primeiros meses: peso, cintura, fome e hábitos.
  4. Um plano B combinado: se o peso subir além de um limite definido com seu médico, você já sabe o que fazer.

Para algumas pessoas, a melhor estratégia é manter uma dose de manutenção por mais tempo, como acontece com qualquer tratamento de doença crônica. Isso não é fracasso. É cuidado.

08

Seu checklist

Salve esta página ou imprima. Resultado com GLP-1 não vem de um dia perfeito, vem de muitas semanas boas o suficiente.

Todo dia

CUIDADO INTEGRADO

GLP-1 funciona melhor em equipe

Médico para ajustar a dose, nutrição para montar o prato e movimento para proteger o músculo. É exatamente assim que a gente trabalha no Instituto Jota.

GLP-1 sozinho

Dose ajustada por conta própria

Efeitos colaterais sem orientação

Risco de perder músculo

Parada sem plano e reganho

GLP-1 com acompanhamento

Dose individual, revisada em consulta

Ajustes rápidos quando algo incomoda

Plano de proteína e treino de força

Saída planejada e monitorada

Quero fazer esse caminho com acompanhamento
PARA LEVAR COM VOCÊ

Um último recado

Se você chegou até aqui, já sabe mais sobre GLP-1 do que a maioria das pessoas que usam. Agora é transformar informação em rotina, uma semana de cada vez.

Se quiser fazer esse caminho com acompanhamento, estou te esperando.

E se este guia te ajudou, mande para alguém que também está começando. Informação boa é a melhor forma de cuidado.

Dra. Tamires Aiex Cortez · CRM-SC 26128